Não se constrói uma casa com apenas uma viga

Não se constrói uma casa com apenas uma viga

Alegria não é a mesma coisa que felicidade. Felicidade costuma ser associada a grandes momentos — conquistas, paixões avassaladoras, viagens inesquecíveis. Já a alegria é mais democrática e cotidiana: aparece num café quente pela manhã, numa música que desperta lembranças boas, numa conversa que rende risadas. Felicidade pode ser um estado; alegria, uma prática.

O problema é que muitas vezes apostamos tudo em uma única fonte de alegria: um relacionamento, um emprego, uma pessoa específica. E quando esse alicerce vacila? A casa inteira desmorona. É como confiar o equilíbrio de uma mesa a uma só perna — instável e fadada ao colapso.

Como mulheres, somos culturalmente treinadas a investir na vida do outro. O cuidado vira missão, como se nossa alegria estivesse sempre condicionada à entrega de tempo, energia e corpo ao outro. A sociedade nos aplaude quando nos anulamos em nome da “dedicação” — mas será que essa equação faz sentido? Será que não é hora de reorganizar prioridades?

Diversificar os pilares da alegria pode ser sobre vivência(s). Que tal imaginar uma espécie de carteira de investimentos emocionais? Em vez de depositar tudo em uma relação amorosa, podemos distribuir em diferentes eixos: amizades, autocuidado, espiritualidade, projetos criativos, pequenas rotinas prazerosas. Assim, quando um pilar fraquejar, os outros seguram o edifício.

Bell Hooks, em Tudo Sobre Amor, indica que amor não é sinônimo de sacrifício cego, aliás, vale muito a leitura desta preciosidade de livro; Para Audre Lorde “o autocuidado não é um ato de indulgência, mas de autopreservação”. Essas mulheres sabiam que alegria não pode ser terceirizada — precisa ser cultivada em solo próprio.

Em algumas (várias) situações, quando se depende de um único alicerce, o comportamento é comparável à ação de um espírito obsessor, o qual idealiza algo ou alguém, persegue, enche o saco, não descansa e não dá descanso. Suga a luz de quem está com o campo magnético aberto e ele próprio, se desconfigura e perde a luz. Para estes casos, além de buscar colocar a reza brava (leia-se espiritualidade) em dia, faz bem realinhar-se com a missão de vida e ancorar os alicerces.

Que tal, práticas simples: desenhe seu mapa de pilares da alegria. Um pilar pode ser dançar, mesmo que sozinha(o), outro pode ser estudar algo novo, outro pode ser cuidar e conversar com as plantas, escrever, se permitir criar algo artístico. São infinitas possibilidades.

Se felicidade pode ser uma conquista eventual, a alegria é exercício diário. E quando aprendemos a multiplicar suas fontes, descobrimos que a vida, mesmo com os seus momentos de sacudida, fica muito mais leve de carregar.

Por isto, como muito sabiamente ensina a expressão popular: “não se constrói uma casa com apenas uma viga.”

Tamires Santana

Assessora de Comunicação HEFC

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